25.4.06

As costas da menina: dor e demência antes do fim.

A palavra é enegrecer. tornar-se negro. tornaram-se negras as mãos da coisinha, após o encontro com as aves. as mãos negras contrastavam com as unhas amarelas, grossas, fundas. fincadas na carne dos dedos. ela rasgava as paredes do quarto com elas, dor contínua e latente, febre senil, corpo dormente. arrastava-se na escuridão a contorcer-se em dores, os grunhidos duravam horas, pairava espesso o som sobre a cama. prendia a respiração a coisinha, a esperar que a morte, esta fagulha, queimasse o corpo, que agora sofria com a ação de outro parasita, desta vez deixado pelos pombos. Pombos, pombos de patinhas rosadas, RATOS DE ASAS, ela pensava. Se o espírito santo veio mesmo em forma de pomba branca, era nojento ele. deve ter cagado nas cabeças de todos, continuou a pensar e mastigar pedaços de madeira. Do chão do quarto ela mordia a quina da cama, aos poucos perderia parte dos dentes, a língua grossa mal permitia que a boca fosse fechada.
pode ouvir a conversa da mãe com o médico:

"Criptococose, dona sara, é isso, creio eu: micose profunda, cujo agente etiológico, Criptococus neoformans, tem afinidade pelo sistema nervoso central. só não entendo o motivo das manchas, do inchaço e da cor preta, mas o agente infeccioso está correto "

A mancha negra corria o corpo em direção ao braço, subia para o ombro e tomava-lhe parte do rosto, permanecia no escuro, deitada no chão, a coçar a língua no lastro da cama. os cabelos da coisinha, castanhos, cresciam sem parar, na direção dos pés, oleosos, brilhantes. se havia uma fenda luminosa atravessando a janela do quarto ao nascer do dia, tocando o chão perto dos cabelos, ela amanhecia com eles direcionados para a luz, cobrindo o rosto e o corpo. a menina tinha os cabelos tocando os joelhos.
a mãe insistia para que ela bebesse e comesse, muito embora a coisinha fosse, a esta altura, incapaz de mastigar. um canudo conduzia os alimentos, não suportava nada pastoso ou com qualquer resquício sólido. negava-se a vestir-se. as mãos, cada vez mais trêmulas, eram cravadas na parede, com a força de uma raiz que fura a pedra. estática, ela não mais saia do canto do quarto, na parte mais úmida, na junção entre a parede fria e úmida e o chão de madeira do quarto. comia cada vez menos, até que parou de comer. as mãos, não esqueça das mãos, ela pensava. e continuava a cavar a parede com as unhas, até perdê-las. sangrou. um sangue branco, seiva. sangrou como jamais havia sangrado, as pontas dos dedos agora faziam o papel das unhas, a boca e o queixo cortados, as feridas brancas, a mancha negra abandonava o rosto e caminhava para as costas da coisinha, único lugar que permanecia imune ao sofrimento. mexia-se apenas em pequenos espamos. para o espanto da mãe, a menina gritava quando qualquer vulto se aproximava do quarto, não mais queria ser vista, pensava apenas em juntar-se à parede úmida.

o sofrimento durou até a chegada da chuva, a mudança de estação trouxe consigo a amenidade do clima, o prenúncio.

Ao acordar do pouco sono que tinha desde que a filha fechou-se no quarto, dona Sara notou o silêncio. Caminhou pelo corredor na ânsia de ver a filha melhor. Surpresa maior foi ver a porta entreaberta, um convite. entrou. a penumbra do quarto havia sido quebrada pela forte luz da manhã que entrava pela janela. sentada junto à parede, a coisinha parecia dormir, braços eestendidos, não havia manchas, cresciam unhas onde há pouco só a carne morta estava. não usava roupas a coisinha, seu rosto era claro, a pele parecia melhor, dormia, com os cabelos a cobrir o tronco, caiam pelos ombros. a mãe aproximou-se da filha, queria abraça-la, puxou a menina para si, mas o corpo nã atendeu, pôde ouvir a respiração da filha, ,,,,,,,,,,,,. ,,,,,,,,,. ,,,,,,,,,,. ,,,,,,,,. funda, calma... a expirar cheiro de chuva, como terra recém molhada pelas primeiras águas do ano. que tipo de sono era este? a menina parecia tranquila, poucas cictrizes, nem parecia o mesmo ser que grunhia na noite anterior. sim, era ana clara ali, encostada na parede, o ventre a mexer, cima, baixo, cima, baixo, lentamente. a mãe ficou algum tempo ouvindo a respiração da filha, até que novamente tentou puxá-la para si. não adiantava, finalmente percebeu que ela estava grudada na parede úmida, presa por uma pequena sebe que havia se formado nas costas.


- de que tipo de planta a senhora está falando dona clara?
- quantos anos faz que o senhor trabalha com plantas?
- dez.
- é botânico?
- biólogo, especialista em botânica. mexo com plantas, cultivo exemplares raros e projeto jardins para desenvolvimento de espécies. mas de que tipo de planta estamos falando afinal?
- nem rosa, nem orquídea rara, dessas que o senhor conhece, nenhuma. do tipo que nasce no ventre materno. deste tipo aqui: olá ana clara, cumprimente o biólogo.
- bom dia senhor biólogo, como é mesmo seu nome?

1 De lírio(s):

Anonymous a ana, porrá! ...

ou vc se perdeu agora, ou tinha se perdido antes, ou quem se perdeu fui eu... acho que fui eu mesma, né? vou reler com mais delícia.

*ah, e os cortes continuam p-e-r-f-e-i-t-o-s!

:**

25 abril, 2006 09:37  

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