25.4.09

De Gran Torino, na avenida a rodar com Clint Eastwood



só é insuportável a dor da existência
para quem é incapaz de libertar-se,
insuportável aos que juram amor ao próprio umbigo
e em tudo procuram aconchego para as nádegas.

assim me disse, entre dentes, Clint Eastwood

o fardo que um homem carrega,
seu amontoado de dores
colecinadas ao longo de uma pobre existência,
sua inglória fortuna de ódio e rancor
amealhada com estupidez e paciência,
dói mais aos incapazes de admitir os próprios erros.

assim me disse, rosnando como um velho rabugento, Clint Eastwood

porém o que mais dói, o que nos faz
durante a noite ranger os dentes,
o que nos deixa a chorar de raiva,
de maxilar trincado às três da manhã
numa cama vazia
a esperar o cinza do céu trazer chuva


(assim me disse Clint Eastwood)

é mesmo ver que a morte é uma escolha sensata,
muito melhor do que viver em meio às baratas,
muito melhor que suportar a estupidez dos filhos...
a morte é um dos caminhos para a redenção
já não é novidade como exemplo
porém sempre nos toca a dor
do homem bom que vê seu sangue
como forma de curar-se e dar aos outros
esta tão preciosa e banal

vida.

mas quem de nós, pergunta Clint Eastwood,
quem de nós é capaz de merecê-la?

14.7.06

Minhas costas doem

Esquece de fato o que eu disse
Não adianta os abalos
Nem os badalos persistentes

Pior seria me encontrar só
Quando só queria coletivar um inteiro

Fazei de minhas idéias
Nossas idéias
E de nossas idéias
Idéias sem donos

Registro único
O redondo vôo do pássaro

Eixos retilíneos giram em torno do próprio umbigo
Assim é o ser humano

E mesmo nisso
Nós temos o direito de sermos lidos enquanto vistos
E se é para o bem de todos
Escrevo já engavetado

Pior seria não me encontrar
Pois nem só eu estaria

13.7.06

O IncrÍveL mUndo das LouCurAs iMCompLetas

Existe um mundo
Onde o limite é um jogo palpável
Escrito num tabuleiro de linhas bambas
De peças ocas
E dados cintilantes
Vestidos de armaduras vermelhas
Com espadas e escudos incandescentes

Um mundo
Onde o desejo do mais uma vez
É o simples e inigualável segredo da vida
Onde o sei mas não sei
É o cabo de força
Dividido pela faca da ambiguidade

Existe um jogo
Onde o limite é um mundo palpável
Na entreda há uma placa dizendo CUIDADO
Na saída outra dizendo EU AVISEI

Ninguém nunca leu esta última

12.7.06

Amor?

Minha alma é presa
Meu corpo é livre

6.7.06

Do samba à rabeca

O papo é sério, nêgo
Agora a moda é
Fazer samba e misturar com drumbass

Com todo respeito
Vou tocando minha rabeca
Imagina se essa moda também pega

Rabequiê pra cá
Rabequiê pra lá

20.6.06

Guevara

A foto mais conhecida de Ché...

...ele já está morto.





19.6.06

Docentes


Vestido de baralho
Sonhos inocentes se transformam em acordes preguiçosos e sustenidos
Sem a audácia da minha ausência
Sem precisar sair

Vou guinar o guia norte fraco do flanco azul de nossas pernas
Sobre o vegetal uniforne que nos tornamos
Sobre a briga do ócio do ópio mal coletado na selva raza da tua mente

Olhamos para o mundo de portas fechadas para minhas esperanças
E eu te culpei por ser só mais uma neste nicho que só pensa em diversão

Não, eu não sou um solinho fúnebre de uma simples guitarra em meio aquele samba
Sou mais que um pandeiro maltrado na execução da cadência
Sou mais que o lindo choro do cavaco agudo em brilhantismo
Mais que o 5º dedo graveando na sétima corda acústica daquele célebre violão

Sou a sinfonia dos corpos em imaginação promíscua
Sou a fé na tangência
O suor da face de quem nunca deixou de amar a si mesmo
Num partido alto banlançado nas cordas da guela da dona do bar da moda entre os velhos e novos docentes

6.6.06

MeiaMeiaMeia

Hojé é o dia...

6.6.06


Nostradamus relata seis papas futuros onde, a partir daí, seria o início do fim. Ele previu três anticristos encarnados em seres humanos. O primeiro seria Napoleão Bonaparte, o Segundo Adolf Hittler e o terceiro ainda está por vir (muitos estudiosos julgam ser Bill Gates III, que pois a soma numerológica do mesmo dá exatamente 666, que é o número da "besta" conforme previu Nostradamus).

De acordo com o profeta, o Armagedom iniciará com o poder desse anti-cristo. Outro fator consideravel é a aparição de falsos Cristos, que enganam os homens e habitam nossos tempos. Nas centúrias de Nostradamus encontramos descrições do último e mais poderoso Anticristo:

“O menino nascerá com dois dentes na garganta”
“Corcunda, será eleito pelo conselho o mais hediondo monstro visto na terra”
“Tarefa de assassino, enormes adultérios, grande inimigo de todo o gênero humano, ao qual fará pior que avós, tios, pais, em ferro, fogo, água, sanguinolento e desumano”


O 3ºAnticristo já tem nome... e descede da linhagem dos W.Bush!

Veste-Me

Veste-me com tua capa de bronzeado natural
Cobre-me com os pêlos louros de costas nuas
Embriaga-me com o último segundo do carinho teu
Faz-me, de mim, um eu todo seu

Navega-me mesmo sem jeito
Quem vai se importar?
Na verdade...
O que é certo, direito ou esquerdo?

Mata-me
Pois precisamos do perigo
Para que insanos e salvos
Possamos desfrutar da afloração
Do nome de quem ama um amor terreno

2.6.06

recebi esta carta & compartilho.

Carta ao Amigo 5555555555555555555555555555 cinco!

Caro Gordo,


Cá as coisas andam com as pernas que não tem. E se o coração insiste em bater é porque a vida tem destas coisas, ela parece querer sempre valer a pena. Por isto sempre que eu lembrar seu nome vou erguer ao alto uma canção e a minha casa, bem como a sua, vai boiar na fronteira do não.
Sabe Thiago, andei lendo livros. E o que eles me dizem não se diz em palavras, de modo que no não dito, no não escrito, reside sempre o feito. Nossos heróis, nós sabemos, estão a roubar supermercados e afirmar a humanidade acima das mercadorias, estão a burlar os preços, a pressupor os fatos nas frestas do sistema. Nossos heróis, ao contrário do besta do cazuza, não morreram de overdose: NOSSOS HERÓIS SÃO A OVERDOSE.
Nós somos o excesso, o que sobra e não se enquadra, somos os que insistem em pensar as estrutruras para fraturá-las no vértice, no apêndice do caos urbano. Vale dizer meu amigo, que nós somos por demais humanos, e como tais, por demais amamos. Esta nossa mania de amar a vida é também nossa mania de amar os vivos. Pois então, aos vivos e às vivas, todo amor que couber no tempo. Sem o por acaso das lágrimas e lamentos, nós não vivemos apenas para fabricar excrementos, isto é fato e por ele não me entrego, ao contrário, por ele é preciso negar com candura e afirmar com bravura, por ele alimentar a mente como quem alimenta criaturas, de novos nomes, novas palavras, novas vidas.
Sabe, a saudade é um negócio estranho. É quando, diante dos fatos, nos perguntamos: " o que será que meu amigo diria?" Você diria que eu quero tudo. Eu diria que não me iludo, todo silêncio um dia se queda surdo, por isso guardo minha voz e meu amor, para um dia torná-los espasmo, susto, para reverberar nas paredes e acordar o aquário onde crio minhas aves marinhas. Eu tenho tanto para dar, tanto para criar, tanto para conversar. Por isto meu amigo, caso eu no acaso da vida (não o acaso em si, mas aquela coincidência desejada, saca?) tenha por mim a morte, com sorte ou não, te peço: beba por mim o que eu beberia por vc, cante por mim o que eu cantaria com vc: faça por mim o que achar que deve fazer, afinal, somos livres para pensar, livres para discordar, para largar tudo e reconstruir, para acreditar no porvir.

P.S. : Maceió é, no fundo sem fundo, a cidade do desencanto. O povo daqui anda despovoado.
Sinto-me só. Ela permanece, há quase cinco anos ela bravamente permanece e torce por mim.

P.S. 2: salve santa geo.

Lc canário, pessoa da pessoa de tainan costa. entidade floco de neve.

p.s. último: cada vez mais fragmentado em nomes. eu.

Céu de Cio

Era uma vez
Noite de céu adentro
As estrelas refletiam
Toda cultura
Da música produzida alagoana

Porém fomos enganados
Por aqueles que se deram o direito
De nos prover esperança

Onde estava a diferença
A disparidade
A dissemelhança
Quando fomos subjugados
Sob os olhares inquisitores
Da dita nata da cultura local
?

Maldita... seria a noite
Em que toda a Terra tremesse
E saculejasse todas as pulgas parasitas
De cachorros vira-latas
Que vivem atrás do cio
De cadelinhas de madame

31.5.06

redondo


redondo
Originally uploaded by cinco555.
saudades!
do lado da antiga, horas e horas após.

pois é!

18.5.06

O pingo do J

Inocência abriu os olhos semi cerrados
Suaves como o desabrochar da rosa mais doce
Orvalho da manhã seguinte... e seguinte... e seguinte
Zonza pela essência de seu próprio ser
Apoderou-se da navalha dos sábios
Orçou todo peso de seus sentimentos e
Zuniu como raio para longe da esfera terrestre
Nunca mais se viu
Rubrica de um sonho sem asas

3.5.06

andei pensando.

Manu chao: mentira




Mentira lo que dice
Mentira lo que da
Mentira lo que hace
Mentira lo que va

La Mentira..

Mentira la mentira
Mentira la verdad
Mentira lo que cuece
Bajo la oscuridad

Mentira, Mentira, la Mentira

Mentira el amor
Mentira el sabor
Mentira la que manda
Mentira comanda

Mentira, Mentira, la Mentira

Mentira la tristeza
Cuando empieza
Mentira no se va
Mentira, Mentira

La Mentira...

Mentira no se borra
Mentira no se olvida
Mentira, la mentira

Mentira cuando llega
Mentira nunca se va

Mentira

Mentira la mentira
Mentira la verdad

Todo es mentira en este mundo
Todo es mentira la verdad
Todo es mentira yo me digo
Todo es mentira ¿Por qué será?

Todo es mentira en este mundo
Todo es mentira la verdad
Todo es mentira yo me digo
Todo es mentira ¿Por qué será?

Todo es mentira en este mundo
Todo es mentira la verdad
Todo es mentira yo me digo
Todo es mentira ¿Por qué será?

2.5.06

Apostas e Gorjetas

Gargala homem sem planos
Despenca ladeira acima
Limpa o sal de tua pele
As rugas destas feridas tão cansadas

Batalha homem sem cor
Rema contra a corrente e o chicote
Deita logo no colo desta tua nêga
E vai pedir arrego e sono e só mais um carinho

Gargalha homem sem prótese
Desvia por tua vida todo esse estresse
Quem não sabe o que é a vida
É quem viveu tantas vidas sem sonhar

Mergulha no bar do fundo sem abismo
No mar da cerveja quente deste baralho de asas

Papiro

Ela chegou meio sem jeito, falando com certo respeito, tornando ainda mais belo toda beleza daquele lugar.

Falava com voz enervada e vergonha estampada nas bochechas rosadas de quem nem sabe bem o que falar.

Fez-se então o silêncio...

Sorrisos e trocas de olhares ingênuos...

Gargalhadas sufocadas, beijos e entranhas.

sentimento sabotado.


eu poderia ficar todas as horas
parado na tua frente,
olhando lábios e dentes,
dizendo teu nome,
só pra me divertir.




mas não. é sempre melhor divergir.
e onde vc estiver, cuidado ao olhar de lado, vai ver estou aí.
do mesmo modo que vc aqui.

1.5.06

uma nova casa.

desta vez em definitivo. para quem se interessar em acompanhar a menina.

http://lccanario.blogspot.com/

28.4.06

confissão da xícara ao bule de café.

minha face é iluminura, hipérbole patética não acontecida. pasmo sigo no pasto da solidão consentida, a esperar a fresta do tempo, a fenda do ventre que vai fecundar o caminho. meus olhos ressentidos recusam. pressinto o gesto antes dele ocupar o espaço e antecipo o aceno. patético poético paleativo sintético, o poeta é como flor mumificada, dormindo no entre folhas da agenda do ano passado. as palavras boiam na água do entendimento, quando tudo soa lamento e amar é sentir-se banhado em tormento. a pálida figura requer patente para olhar as coisas de frente, ledo engano dormente: de nada adianta tentar compreender, posto que a dor só é dor em quem sente.

ahhhh, a liberdade

Há a liberdade e hão perspectivas. Ângulos e ângulos, congruentes ou não!
É disperdício na minha mão, sim precipício no chão.
Há o corpo e há a mente. Realmente, hei de liberto.
Há de escolher e há de viver OU Hão de escolher e hão de viver.
Comparecer? Nada se sabe, além do que há.

Das escolhas e das possibilidades.
Liberto tu, libertino eu.
Dois pesos, duas 'liberdade'.
Nenhuma medida.

Ligeiro, rasteiro.
FORASTEIRO
invadiu invadindo o tempo, o espaço e o hão.

e eu aqui? não sei li-dar.
é clichê por clichê.
esquecer pra viver.

25.4.06

quebrando o ritmo da menina. Para Guadalupe!

acabou que aqui virou, mesmo, a casa do canário, sem trocadilhos binários ou coisa parecida. mas eu estou só preparando as asas. breve o ninho será apenas a lembrança.

essa é do tempo em que até sonho era em espanhol:

Composição: Horacio Guarany
Si se calla el cantor calla la vida porque la vida, la vida misma es todo un cantosi se calla el cantor, muere de espantola esperanza, la luz y la alegría.Si se calla el cantor se quedan soloslos humildes gorriones de los diarios,los obreros del puerto se persignanquién habrá de luchar por su salario.
HABLADO'Que ha de ser de la vida si el que cantano levanta su voz en las tribunaspor el que sufre,´por el que no hayninguna razón que lo condene a andar sin manta'Si se calla el cantor muere la rosade que sirve la rosa sin el cantodebe el canto ser luz sobre los camposiluminando siempre a los de abajo.Que no calle el cantor porque el silenciocobarde apaña la maldad que oprime,no saben los cantores de agachadasno callarán jamás de frente al crimén.
HABLADO'Que se levanten todas las banderascuando el cantor se plante con su gritoque mil guitarras desangren en la nocheuna inmortal canción al infinito'.Si se calla el cantor . . . calla la vida.


P.S. aí lupe! não falei que vc acabaria voltando? Sua chilena miserável, ainda sabe ler português?

no es el condor guadalupe, pero para lo mismo esta listo el canario.

yo no creo en brujerias, pero que las hay, las hay.

lc canário. passarinho de aquário.

As costas da menina: dor e demência antes do fim.

A palavra é enegrecer. tornar-se negro. tornaram-se negras as mãos da coisinha, após o encontro com as aves. as mãos negras contrastavam com as unhas amarelas, grossas, fundas. fincadas na carne dos dedos. ela rasgava as paredes do quarto com elas, dor contínua e latente, febre senil, corpo dormente. arrastava-se na escuridão a contorcer-se em dores, os grunhidos duravam horas, pairava espesso o som sobre a cama. prendia a respiração a coisinha, a esperar que a morte, esta fagulha, queimasse o corpo, que agora sofria com a ação de outro parasita, desta vez deixado pelos pombos. Pombos, pombos de patinhas rosadas, RATOS DE ASAS, ela pensava. Se o espírito santo veio mesmo em forma de pomba branca, era nojento ele. deve ter cagado nas cabeças de todos, continuou a pensar e mastigar pedaços de madeira. Do chão do quarto ela mordia a quina da cama, aos poucos perderia parte dos dentes, a língua grossa mal permitia que a boca fosse fechada.
pode ouvir a conversa da mãe com o médico:

"Criptococose, dona sara, é isso, creio eu: micose profunda, cujo agente etiológico, Criptococus neoformans, tem afinidade pelo sistema nervoso central. só não entendo o motivo das manchas, do inchaço e da cor preta, mas o agente infeccioso está correto "

A mancha negra corria o corpo em direção ao braço, subia para o ombro e tomava-lhe parte do rosto, permanecia no escuro, deitada no chão, a coçar a língua no lastro da cama. os cabelos da coisinha, castanhos, cresciam sem parar, na direção dos pés, oleosos, brilhantes. se havia uma fenda luminosa atravessando a janela do quarto ao nascer do dia, tocando o chão perto dos cabelos, ela amanhecia com eles direcionados para a luz, cobrindo o rosto e o corpo. a menina tinha os cabelos tocando os joelhos.
a mãe insistia para que ela bebesse e comesse, muito embora a coisinha fosse, a esta altura, incapaz de mastigar. um canudo conduzia os alimentos, não suportava nada pastoso ou com qualquer resquício sólido. negava-se a vestir-se. as mãos, cada vez mais trêmulas, eram cravadas na parede, com a força de uma raiz que fura a pedra. estática, ela não mais saia do canto do quarto, na parte mais úmida, na junção entre a parede fria e úmida e o chão de madeira do quarto. comia cada vez menos, até que parou de comer. as mãos, não esqueça das mãos, ela pensava. e continuava a cavar a parede com as unhas, até perdê-las. sangrou. um sangue branco, seiva. sangrou como jamais havia sangrado, as pontas dos dedos agora faziam o papel das unhas, a boca e o queixo cortados, as feridas brancas, a mancha negra abandonava o rosto e caminhava para as costas da coisinha, único lugar que permanecia imune ao sofrimento. mexia-se apenas em pequenos espamos. para o espanto da mãe, a menina gritava quando qualquer vulto se aproximava do quarto, não mais queria ser vista, pensava apenas em juntar-se à parede úmida.

o sofrimento durou até a chegada da chuva, a mudança de estação trouxe consigo a amenidade do clima, o prenúncio.

Ao acordar do pouco sono que tinha desde que a filha fechou-se no quarto, dona Sara notou o silêncio. Caminhou pelo corredor na ânsia de ver a filha melhor. Surpresa maior foi ver a porta entreaberta, um convite. entrou. a penumbra do quarto havia sido quebrada pela forte luz da manhã que entrava pela janela. sentada junto à parede, a coisinha parecia dormir, braços eestendidos, não havia manchas, cresciam unhas onde há pouco só a carne morta estava. não usava roupas a coisinha, seu rosto era claro, a pele parecia melhor, dormia, com os cabelos a cobrir o tronco, caiam pelos ombros. a mãe aproximou-se da filha, queria abraça-la, puxou a menina para si, mas o corpo nã atendeu, pôde ouvir a respiração da filha, ,,,,,,,,,,,,. ,,,,,,,,,. ,,,,,,,,,,. ,,,,,,,,. funda, calma... a expirar cheiro de chuva, como terra recém molhada pelas primeiras águas do ano. que tipo de sono era este? a menina parecia tranquila, poucas cictrizes, nem parecia o mesmo ser que grunhia na noite anterior. sim, era ana clara ali, encostada na parede, o ventre a mexer, cima, baixo, cima, baixo, lentamente. a mãe ficou algum tempo ouvindo a respiração da filha, até que novamente tentou puxá-la para si. não adiantava, finalmente percebeu que ela estava grudada na parede úmida, presa por uma pequena sebe que havia se formado nas costas.


- de que tipo de planta a senhora está falando dona clara?
- quantos anos faz que o senhor trabalha com plantas?
- dez.
- é botânico?
- biólogo, especialista em botânica. mexo com plantas, cultivo exemplares raros e projeto jardins para desenvolvimento de espécies. mas de que tipo de planta estamos falando afinal?
- nem rosa, nem orquídea rara, dessas que o senhor conhece, nenhuma. do tipo que nasce no ventre materno. deste tipo aqui: olá ana clara, cumprimente o biólogo.
- bom dia senhor biólogo, como é mesmo seu nome?

22.4.06

as costas da menina. quase fim.

Agora tinha certeza. E certezas são coisas que ela acreditava não necessitar ter, achava mesmo que ter certeza de alguma coisa tornava ela morta, fincada no chão das coisas incertas. Crescia como uma planta, tinha vivido como uma planta e havia se tonado uma planta. Levou para casa o vidrinho com o líquido branco que o médico mostrou, virou caso de estudo para a medicina, alegria de médico residente, chegava no hospital e era feita uma fila de estagiários e enfermeiras para ver a menina planta. Um deles, professor e doutor, disse com ar sereno no rosto e o distanciamento que só os piores médicos podem ter:" se a paciente Ana Clara Peixoto tivesse nascido no século dezenove, seria atração de circo" todos riram, inclusive a coisinha, que levemente, mas muito levemente mesmo, como um trem caindo no vácuo, falou: "seríamos todos doutor, a começar pelo senhor e seus alunos aí." O ar da sala mudou de cor, suavemente.

Cortar a coisa nas costas doia, mas o que doia mais era a sensibilidade ao sol, o calor em excesso da cidade a fazia sentir um torpor contínuo, com as costas de canto a canto ardendo. Se tomava banho percebia nitidamente o crescimento, novas folhas, novos ramos, a mesma pessoa magra e branca, de costas largas.
As costas de Ana Clara tinham raízes. A radiografia mostrava que a coisinha estava com a coisa fincada na coluna vertebral, brotava de dentro da medula espinhal. Certa feita, fechada no quarto, cortou-se levemente no antebraço, visco branco saltou aos olhos, seiva que tornava-se quase transparente diante da luz. Tinha a impressão que a pele descamava, confirmou ao puxar com a unha uma parte da pele do ombro direito:

- mãe, vai começar o outono.
- mas filha, mal terminou o verão e em maceió nem se percebe direito as estações, aqui só chove ou faz sol.
- vai começar em mim mãe, o outono começa sempre dentro da gente, quando as lembranças se soltam no chão da cabeça.
- filha, você precisa descançar.
- mãe, a senhora precisa acordar.

Se há uma coisa que amadurecia na coisinha, era a capacidade de não deixar nada sem resposta, pessoas, fatos, ela odiava ficar muda diante dos fatos, odiava ficar muda diante das pessoas. Ganhou uma nova mania nos últimos tempos, passou a falar em voz baixa consigo mesma, na primeira pessoa, o tempo inteiro a questionar-se. Aproveitou o dia ameno e foi caminhar, com as costas abertas, aparadas pela mãe com tesoura fina.

De volta a praça foi dar comida aos pombos. Sentada no banco pensou no abandono, no menosprezo, na curiosidade de quem passava por ela, olhava as patas dos bichos, vermelhas, com cascas, doentes. Não era muito diferente deles, bem como não o era de todas as coisas vivas, muito embora compartilha-se seu ser com um parasita vegetal, não via diferença entre estes os outros que normalmente parasitam um ser humano. As pessoas alimentam as coisas dentro delas, que por sua vez vão alimentar a terra, que por sua vez alimentará outras coisas no ventre, que por sua vez irão se hospedar nas pessoas e assim por diante, não era isso a vida Ana Clara? a gente vive alimentado parasitas internos e externos, dando nossa cor, nossa seiva eleborada aos vermes do corpo Ana Clara, viver não é isso?

- não, não é.

E odiou a si mesma por interrogar-se em terceira pessoa. Porém o ódio não teve tempo de terminar, pois um pombo pousou ao lado, seguido por outro e mais outro, três aves ao redor dela, como se não fosse um humano ali, próximos demais os bichos, machos ou fêmeas? O mais corpulento era macho, certeza. A cena caberia num quadro, quem pintaria? Que nome levaria? A menina dos pombos ou os pombos da menina? Menina ou mulher? Mais bichos se aproximaram, logo havia oito, um deles subiu nas costas dela, a repulsa a fez estática, parada apenas sentiu a dor, a maior dor até agora. O animal meteu o bico nas costas da menina, uma, duas, três vezes, arrancou um talo largo e partiu. Outros vieram, sobre as costas um pequeno bando. Não gritou, apenas levantou-se, gemido escuro nos lábios.

18.4.06

a quem possa interessar:

a menina resiste saca? fica zanzando na minha cabeça... o problema é: o que fazer com ela?

a. deixo viver, sem a coisa nas costas.
b. mato ela, com coisa e tudo.
c. ela viver, a coisa tb.
d. ela morre, a coisa vive.
e. não importa o fim, mas sim os meios para.

fala aí...

pois é

VIVENDO E ACONTECENDO!

17.4.06

one day

for bizarre day...

i dont gosto.

14.4.06

poema de uma só face.


permita-me a repetição:

"belo dia em que você acorda
e vê que sequestraram a sua sombra.
mas o pior, o pior mesmo é saber
que o responsável por tal delito
simplesmente acabou de acordar"